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Uma visita a pequena grande Brasserie St Feuillien

Domingo de manhã. Neve caindo lá fora e dentro do quarto de hotel está super agradável. Ocasião perfeita para um farto e calmo desjejum, seguido de uma boa leitura relaxante. Certo? Talvez, mas não para quem acordou em Poperinge, na Bélgica! Mais ainda, era o dia de conhecer por dentro uma cervejaria que para mim é um dos ícones belgas: Brasserie St Feuillien.

As histórias de muitas cervejarias na Europa remontam a um longo passado e o caso da St Feuillien não é diferente. Em 1125, monges fundaram em Le Roeulx, uma cidade na região da Valônia, a abadia de Saint Feuillien, que veio a se tornar um polo não só religioso, mas também econômico e cultural.

Em 1796, a abadia, assim como muitas outras, foi destruída pelos soldados da revolução francesa. Em 1873 nasce a cervejaria, fundada pela reconhecida Stéphanie Friart, produzindo cervejas leves, o que era comum para a época e local. A partir de 1910, a cervejaria começou a produzir outros estilos como Grisette, Saison e Tripel. Hoje, a brasserie tem mais de 10 rótulos! 

Voltando ao café da manhã, foi realmente longo e farto, mas dentro do carro. A nossa visita estava marcada para as 10h30, mas estávamos hospedados a uma hora e meia de Le Roeulx e é uma frustração muito grande chegar em cima da hora nestas visitas, sem poder apreciar todo o clima que as antecede. 

Tecnologia e tradição combinadas

Logo que entramos na linda cidade de pouco menos de 10 mil habitantes, fui tomado por um sentimento acolhedor muito grande. As casas todas muito bem cuidadas, várias ruelas, pequenas praças. Começava a entender de onde vem todo o cuidado em produzir ótimas cervejas. 

A brasserie fica no centro da cidade e de fora tudo que vemos é um lindo, pequeno e convidativo prédio de tijolo à vista, com um pequeno letreiro da St Feuillien. Fomos recebidos pelo guia no belo jardim de entrada, onde aproveitamos para tirar fotos e apreciar toda a estrutura da cervejaria. 

A visita começou pelas instalações antigas da cervejaria, com equipamentos do século XIX. Passamos pelas antigas tinas de mostura e fervura, envasadora e moedor de grãos. O guia detalhou como todos os processos funcionavam e foi incrível perceber que, apesar da tecnologia ter avançado muito, o princípio da produção permaneceu o mesmo.

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Entrando de cabeça na produção

Fomos então para as novas instalações. O cobre deu lugar ao inox. Diferente da grande maioria das visitas às outras cervejarias belgas, essa ocorria literalmente pelo meio da fábrica: pequenos corredores e passagens entre equipamentos de envase, insumos e fermentadores em plena atividade.

Sempre imaginei grandes instalações quando se falava em St Feuillien, contudo a fábrica é relativamente pequena e ainda mantém o clima familiar, o que deixa a visita ainda mais intimista. Como um bom amante da escola cervejeira belga, em cada lugar que parávamos, aproveitava para pedir ao guia mais explicações do processo produtivo, dos insumos e da história da cervejaria.

Após uma hora e meia de visitação, o guia, que nesse momento já era meu mais novo amigo belga, nos informou que a visita estava chegando ao fim. Misto de alegria e tristeza, já que o fim da visita se dava no bar da fábrica. O ambiente é todo decorado com memorabília da cervejaria e expõe diversos itens à venda, como camisetas, taças, packs de cerveja, garrafas rolhadas e muitas outras tentações. A vontade era pegar dois de cada!

Papo cervejeiro

Nos acomodamos em uma mesa e começamos a degustação com dois estilos regionais e muito peculiares: Grisette Blanche, uma cerveja leve e refrescante à base de trigo, e Saison, uma cerveja de fazenda com o toque do sul da Bélgica. Na sequência apreciei a Blonde e a Brune da casa e me mudei para o balcão, para continuar o papo com o guia sobre cultura cervejeira belga. Como esta era a única visita do dia, o guia também tomava seus rótulos preferidos entre um serviço e outro. A visita se tornou uma agradável roda de amigos.

Para finalizar a Brasserie St Feuillien com chave de ouro, degustei a Tripel e dois verdadeiros néctares da casa: a Grand Cru, uma belgian strong golden ale que leva dry hopping de lúpulos nobres, e a Cuvée de Noël, uma Belgian Dark Strong Ale sazonal perfeita para os dias frios. Evidentemente que cedi às tentações e comprei duas taças, um abridor de garrafas, um four-pack e duas garrafas rolhadas. Podia ser minha última visita da vida naquela cervejaria e precisava garantir. 

E assim cheguei ao final de mais uma difícil tarefa cervejeira. Não foi fácil, mas a gente se esforça. Até a próxima parada!

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Escrito por Enzo Molinari

Administrador de empresas e amante da cultura cervejeira. Homebrewer, BJCP Provisional Judge e beer sommelier.

Escritor
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